Um convidado especial

14/04/2009 at 12:15 pm 3 comentários

Bom, a Mi se despediu da gente depois de 4 semanas nos dando dicas ótimas de livros. E chegou a hora de apresentar o próximo convidadO(com o mesmo) da sessão Chá com letras. Graças as dicas da Mi aqui, ele chegou ao nosso blog depois de vê-la falando do seu livro. Isso mesmo, nosso próximo convidade, que fica com a gente por 4 sábados é o autor do livro “Memórias de um diabo de garrafa”, Alexandre Raposo.

Alexandre atendeu ao nosso convite, e sábado já entramos com um post dele falando um pouco sobre a vida de escritor. Ele também nos disse que é díficil falar sobre suas próprias obras, nosso pedido original. Então sugerimos que ele dê dicas de outros livros. Vamos ver o que esse moço pra lá de talentoso irá nos indicar!

Mas, o escritor também nos mandou um texto que redigiu a um tempo,e disse que postassemos quando desse. Por ele, descobrimos que hoje o nosso convidado está aniversariando. Pelo menos, é o que diz o texto. Deixo aqui em meu nome, no da Jê e de todos que acompanham o blog o nosso abraço e nossos desejos de felicidade  à você Alexandre. Será um prazer tê-lo conosco por esses próximos sábados!

NAT

 

 

——————–

DATA NEFASTA

    Recentemente, procurando material para redigir um discurso-manifesto que pretendia desovar em meu aniversário de 51 anos — o Aniversário da Boa Idéia, que se aproxima — fiz uma pequena pesquisa a respeito do dia em que nasci. Pretendia brincar com os eventos importantes acontecidos naquele dia 14 de abril de 1958, em contraste com a total desimportância de meu nascimento.     
    Quanto mais pesquisava, mais coisa encontrava, e já imaginava um discurso hilariante, repleto de fatos relevantes em contraponto à irrelevância de minha vinda ao mundo, quando dei-me conta de que estava prestes a pôr tudo a perder. Em realidade, estava tentando ser ocorrente e espirituoso o que, definitivamente, não é o caso. Não há o que fazer graça aqui. A data, como dizem os personagens da atual novela das oito, “nada tem de auspiciosa”.
    Se eu fosse chinês, por exemplo, meus pais certamente tentariam subornar o escrivão local para adiantar (ou atrasar) em um dia a data de meu nascimento. Tudo isso porque, na China, tanto o número quatro quanto o catorze são tidos como de péssimo agouro por terminarem com a sílaba “si”, que quer também dizer “morte” em chinês. Pelo mesmo motivo, em muitos edifícios chineses os botões dos elevadores pulam do três para o cinco e do treze para o quinze.
    Já se eu fosse um antigo maia ou asteca, estaria ainda mais lascado. De acordo com o calendário desses povos, minha data de nascimento é 10 Chichan 3 Uayeb. Chichan, em maia, quer dizer cobra, um dia como qualquer outro. O problema é com o mês de meu nascimento, o tal Uayeb, também conhecido como deus A, de “Azarado”, freqüentemente retratatado como uma entidade alcóolatra e sexualmente pervertida que rege os Cinco Dias Nefastos que encerram cada período de dezoito meses do ano maia.
    Neste caso, meus país teriam de subornar o feiticeiro local para alterar minha data de nascimento em dois dias para frente — 12 Manik 0 Pop — ou quatro para trás — 6 Imix 19 Cumku. De outro modo, eu estaria condenado a uma existência miserável.
    Por sorte, nasci no ocidente, na cidade do Rio de Janeiro, Brasil, onde tais surperstições não vigoram. Aqui, o 14 de abril é apenas a data em que se comemora a integração pan-americana e os santos Tibúrcio, Valeriano e Máximo, três mártires dos primórdios do cristianismo. E se você não der crédito ao astrólogos — que falam horrores a respeito da hora de meu nascimento e das infelizes conseqüências de alguém ser do signo de Áries e ter o ascendente e a Lua em Peixes — não há por que se preocupar.
    Mas o lugar de meu nascimento tem lá a sua carga de mau augúrio. Não que seja um lugar desprivilegiado. Ao contrário. Gente muito ilustre nasceu por ali. Entre tantos, um de meus meu ex-editores, famoso etil-cartunista carioca, ilibado criador da contrapartida subdesenvolvida do Mickey Mouse, que gostava de dizer que nascera no Hospital dos Servidores do Estado, na Praça da Cruz Vermelha, na Lapa, e que pretendia morrer no outro lado da rua, no Hospital do Câncer, “porque nascer de um lado da praça e morrer do outro é o maior barato, uma coisa redonda…”
    Contudo, quando trabalhava na antiga, extinta e antológica revista Manchete, ainda nos tempos da Guerra Fria, descobri coisas a respeito daquela praça que me deixaram atônito. É que caiu-me em mãos uma brochura editada pela Força Aérea dos Estados Unidos, material ultra-secreto, vazado sabe-se lá através de qual fonte quentíssima, chamado “Alvos idéias e conseqüências imediatas da explosão de ogivas nucleares na Região Sudeste do Brasil no caso de uma guerra nuclear generalizada”.
    Não foi sem alguma consternação que descobri que a ogiva que transformaria minha cidade em churrasco seria lançada sobre um complexo hospitalar, no exato lugar onde eu havia nascido. Depois, pensando melhor, achei que aquilo pouco importava. Quando se lança uma bomba de hidrogênio sobre uma cidade, não se deve discriminar muito se o alvo é um quartel ou uma maternidade pública.
    Seja como for, o fato é que, com toda essa carga de mau augúrio, cheguei aos 51 relativamente inteiro. E nenhuma bomba nuclear caiu sobre a praça. Ainda não, pelo menos. Quanto ao discurso-manifesto… bem, pelo sim pelo não, após tudo o que descobri sobre a data, resolvi riscá-lo da agenda da festa substituindo-o por uma rodada extra de champanhe.
    É melhor deixar quieto…

Alexandre Raposo

 

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Dicas de fotografia Quarto texto escolhido

3 Comentários Add your own

  • 1. Val Prochnow  |  15/04/2009 às 8:15 pm

    que delícia de texto, adorei…! Que venham mais textos do Alexandre, já to ansiosa pra ler!
    Abraço grande, parabéns pelo novo colaborador!

    Responder
  • 2. Mile  |  16/04/2009 às 1:22 pm

    Seja bem Vindo Alexandre!

    Responder
  • 3. Mônica Braga  |  29/08/2009 às 7:24 pm

    Como vai você? Espero que bem…

    Responder

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