Vida de escritor

18/04/2009 at 8:00 am 1 comentário

As meninas pediram que eu escrevesse um post falando de minha carreira de escritor. Incauto, aceitei a tarefa sem me dar conta de quão difícil é falar de si mesmo sem parecer pretensioso, falsamente humilde, prolixo ou burocrático. Falar de si mesmo na medida certa e ainda assim divertir o leitor não é fácil, mas vá lá. Rapidinho, que é para não enjoar: em meus vinte e cinco anos como escritor profissional trabalhei com todo tipo de texto que se possa imaginar. Fui revisor de bulas de remédio, copidesque de registros de patentes, copilador de cartas eróticas de leitores e redator de entrevistas, reportagens e outras matérias relativamente sérias publicadas na grande imprensa. Quebrei a espinha consertando grandes porcarias literárias e dando jeito em textos irrecuperáveis que, no entanto, acabavam se transformando em retumbantes bestsellers. Tinha especial habilidade parar escrever teses de mestrado para gente que deveria estar no primário, ou para redigir discurso de candidatos a cargos públicos que deveriam estar na cadeia.

Durante a minha carreira, representei todos os papéis e comi em todos os restaurantes da empresa. Ombreei com os gráficos na cantina do subsolo e com os imortais de mentirinha — de lá para cá já morreram vários — no salão de jantar da cobertura, com vista panorâmica da baía.

Nesses anos de literatices, escrevi vários livros, fossem em meu nome, no de outros, ou sob pseudônimos. Todos estes livros foram muito bem recebidos pela crítica e um sujeito de certo jornal interiorano chegou a farejar flatos de Machado em um de meus romances menos obscuros. Animados por tais augúrios, meus editores insistiram em continuar a publicá-los. No embalo, lançaram-me dois romances históricos, um livro de contos de ficção-científica e um manual de redação para vestibulandos desesperados, afora muita miudeza que agora não vem ao caso.
Corajosos os editores.

O público, porém, parece não ter caído na conversa e todos os meus livros acabaram se perdendo no grande buraco negro da indiferença humana.
Não me queixo. Tive as minhas quinze linhas de fama. E, cá entre nós, convenhamos, depois do advento do sistema Cameron, não há quem dê conta de ler tanto livro jogado no mercado.

Hoje, embora já não escreva tanta coisa de minha autoria, tornei-me um bem sucedido tradutor de deliciosos romances de suspense. Vez por outra, faço umas matérias de turismo para uns malucos na Flórida que adoram os meus textos. E sempre aparece um político analfabeto com o vernáculo estropiado precisando de ajuda. E a gente vai levando.

Ah, sim. Recentemente, passadas as tempestades, mudei-me para um sítio encravado no meio da mata, no topo do Maciço do Couto, na Serra do Mar, onde, quem sabe, talvez finalmente retome o romance inacabado que espera já há tanto tempo na gaveta. A foto que ilustra a matéria tem sido meu local de trabalho preferido nos últimos três meses.

Beijos a todas!
Alexandre Raposo

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Entry filed under: Chá com letras.

Um sorteio diferente Aprendendo fotografia

1 Comentário Add your own

  • 1. Priscila (Pri...)  |  18/04/2009 às 7:16 pm

    Amei ler isso. O glamour existe na dose exata e o trabalho árduo é o foco constante. O local de trabalho combina com aquela imagem romantizada que fazemos do labor solitário dos escritores. Mas eu continuo achando um sonho viver das letras e ter acesso aos pensamentos mais diferentes de outros autores. Obrigada, Alexandre, por compartilhar conosco.

    Responder

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